A evolução pode ser a culpada pela suas dores nas costas

23 de setembro de 2020 | sem comentário | Categoria(s): dores nas costas, Sem categoria

As dores na parte de baixo das costas, comuns a muitas pessoas, podem ser resultado da evolução da humanidade. Uma semelhança das vértebras humanas com a espinha dorsal dos nossos ancestrais mais próximos, os chimpanzés, parece ser a raiz do problema.

O curioso fato foi apresentado por uma pesquisa publicada no jornal “BMC Evolutionary Biology”. Desenvolvido pela Universidade Simon Fraser, no Canadá, o estudo sugere que a evolução relativamente rápida de nossa capacidade de andar sobre duas pernas pode ter tido um impacto considerável na saúde do homem moderno.

Os humanos são mais comumente afetados com doenças da coluna do que os primatas. E uma explicação amplamente discutida para o problema, é o estresse colocado na coluna vertebral pela locomoção bípede. Teoria que ganha sustentação com a referida pesquisa.

Uma causa comum de dor nas costas, hérnia de disco intervertebral, tem taxas de prevalência que variam de 20% a 78%, dependendo da população. Esse problema é causado pelo prolapso de uma substância gelatinosa dentro do disco vertebral. Quando relacionada à condição vertical da coluna, a hérnia é caracterizada por desvios de cartilagem chamados de nódulos de Schmorl.

Os pesquisadores estudaram as vértebras em homens, chimpanzés e orangotangos buscando entender a ligação entre a postura, a forma de locomoção e a aparência dos discos vertebrais nos seres humanos e nas outras espécies. “Nosso estudo é o primeiro a usar métodos quantitativos para descobrir por que os humanos são tão frequentemente afetados por problemas nas costas em comparação com os primatas”, afirma a pesquisadora e coordenadora do trabalho, Kimberly Plomp, da Universidade Simon Fraser.

Os cientistas compararam 141 vértebras humanas, 56 vértebras de chimpanzé, que é uma espécie quadrúpede, e 27 vértebras de orangotangos, primata que usa os quatro membros como mãos para escalar, e encontraram diferenças significativas em sua forma. Para eles, a compreensão do nosso bipedalismo pode ser explicada pelos diferentes modos de locomoção

Das vértebras humanas estudadas, 54 apresentavam nódulos de Schmorl, o que indicava a hérnia de disco. E mais a fundo, os pesquisadores descobriram que essas vértebras com nódulos apresentavam mais semelhanças com as vértebras dos chimpanzés.

De acordo com a pesquisa, essa semelhança sugere que a hérnia de disco afeta preferencialmente indivíduos com vértebras mais próximas às nossas formas ancestrais. Essas pessoas podem ser menos adaptadas ao bipedalismo e sofrer com mais frequência de doenças da coluna vertebral relacionadas à carga.

Os autores acreditam que seus achados podem ser usados ​​para interpretar exames clínicos de doenças da coluna e ajudar os médicos a investigar aquelas pessoas que são mais suscetíveis à hérnia de disco. “Isso pode ajudar no cuidado preventivo ao identificar pessoas, como atletas, que podem ter mais risco de desenvolver a doença”, salienta Kimberly Plomp.

Identificar que uma forma vertebral ancestral pode influenciar a ocorrência de uma doença comum em humanos reforça a ideia de que a evolução relativamente rápida do bipedismo pode ter tido um grande impacto na saúde do homem moderno.

No entanto, os pesquisadores deixaram claras algumas das limitações que o estudo sofreu, como a baixa amostragem e os seres humanos de origens provenientes de populações inglesas medievais e pós-medievais.

A ideia é que a pesquisa evolua, trazendo mais amostras e múltiplas populações de diferentes origens ancestrais e etnias, bem como análises de tomografia computadorizada para estudar as hérnias horizontais, que não deixam evidências sobre os ossos.

Médico neurocirurgião especialista em tratamentos da coluna vertebral, é membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Academia Brasileira de Neurocirurgia e Sociedade Brasileira de Coluna, bem como da North American Spine Society e Spinal Artroplasty Society.


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