Série: Desmentindo mitos sobre dor e cirurgia da coluna Episódio 3 – “Fazer bloqueio na coluna vicia?”
18 de fevereiro de 2026 | sem comentário | Categoria(s): Sem categoria
Talvez você já tenha escutado algo assim:
“Cuidado com esse bloqueio… isso vicia.”
“Se fizer um, vai ter que fazer para o resto da vida.”
“É igual remédio forte, depois o corpo acostuma.”
Essa é uma das ideias mais enraizadas — e mais equivocadas — quando se fala em tratamento para dor na coluna.
Hoje, vamos esclarecer de forma definitiva:
Bloqueio não é vício. É tratamento.
Mas como todo recurso terapêutico, precisa ser bem indicado, bem feito e dentro de um plano claro de reabilitação.
Vamos entender?
Afinal, o que é um bloqueio na coluna?
O bloqueio é um procedimento médico, guiado por imagem, no qual se injeta uma combinação de anti-inflamatório e anestésico diretamente no local da dor.
Ele pode ser aplicado em diferentes estruturas, como:
Faceta articular
Forame neural
Raiz nervosa
Canal vertebral
Disco intervertebral (em casos específicos)
É um procedimento ambulatorial, rápido, com anestesia local ou sedação leve.
E o objetivo não é “mascarar a dor”, como dizem por aí.
O objetivo é desinflamar a região, interromper o ciclo da dor crônica e permitir que o paciente retome sua reabilitação com menos dor.
Bloqueio é a mesma coisa que infiltração?
Nem sempre.
“Infiltração” é um termo mais genérico, usado em ortopedia e reumatologia.
“Bloqueio” é um termo técnico, neurocirúrgico ou anestésico, que envolve precisão anatômica guiada por imagem, muitas vezes com uso de contraste.
Ambos utilizam substâncias semelhantes, mas o bloqueio é mais específico e direcionado a estruturas neurológicas.
Mas então… por que dizem que bloqueio “vicia”?
Vamos desmistificar esse ponto.
O bloqueio não tem nenhuma substância com potencial de dependência.
Não contém opioides.
Não contém substâncias psicoativas.
Não atua em áreas cerebrais ligadas ao vício.
O que acontece é outra coisa.
Quando o paciente sente alívio com o bloqueio — e não sente mais com analgésicos ou fisioterapia — ele passa a desejar aquela sensação de bem-estar com mais frequência.
Isso não é vício fisiológico, mas sim um reflexo do sofrimento prolongado que a dor trouxe.
A culpa não é do bloqueio, é da dor crônica
Imagine alguém que convive com dor incapacitante por meses ou anos.
Tenta de tudo: remédios, fisioterapia, exercícios, posturas. Nada resolve.
De repente, após o bloqueio, a dor some por dias ou semanas.
Ele volta a andar, dormir, sorrir, trabalhar.
É natural que essa pessoa deseje repetir o procedimento.
Mas isso não é “vício”. É esperança.
E o papel do médico é orientar com clareza: o bloqueio é um passo, não o destino final.
Quantos bloqueios um paciente pode fazer?
Depende do caso, mas existe uma lógica clínica bem definida.
Bloqueios devem ser parte de um plano terapêutico.
São indicados, geralmente, em sequência de 1 a 3 sessões.
A frequência deve respeitar um intervalo seguro, geralmente entre 3 e 4 semanas.
Se o alívio for temporário, é preciso reavaliar a causa da dor, como uma possível hérnia compressiva.
Repetir bloqueios sem critério, mês após mês, sem diagnóstico claro, isso sim pode ser um erro.
Mas isso é falha de conduta médica, não um problema do procedimento em si.
Existe algum risco em repetir bloqueios?
Sim, como todo procedimento médico, há limites.
Corticoides em excesso podem afetar metabolismo, pressão e ossos.
Repetições mal indicadas podem mascarar diagnósticos mais graves.
Pode haver rarefação local de tecidos se a aplicação for sempre no mesmo ponto.
Mas esses riscos são conhecidos e evitáveis com boa prática médica.
Quando bem indicados, os bloqueios reduzem o uso de opioides e analgésicos fortes, aceleram a recuperação funcional e evitam cirurgias desnecessárias em muitos casos.
Quando o bloqueio é a melhor opção?
Dor lombar ou cervical por artrose facetária.
Radiculopatias inflamatórias leves.
Síndrome miofascial com foco neural.
Pré-operatório em paciente com dor intensa.
Teste diagnóstico para dor de origem incerta.
Ele também é usado como teste terapêutico.
Se a dor melhora com o bloqueio, é um forte indicativo de que aquela região é a verdadeira fonte da dor e que poderá responder bem a outros tratamentos ou até à cirurgia, se for o caso.
E quando o bloqueio falha?
Nem todo bloqueio funciona. E isso também precisa ser dito com clareza.
Motivos para falha incluem diagnóstico incorreto, quando o bloqueio é feito no local errado, causas mecânicas graves como hérnia de disco extrusa, fibrose local ou alterações anatômicas complexas, além de doenças sistêmicas que perpetuam a dor, como a fibromialgia.
Por isso, bloqueio não substitui investigação.
Ele é parte do processo. Um aliado, não um atalho.
Conclusão: bloqueio não vicia
O maior risco do bloqueio não é fisiológico.
É cultural.
É o mito que assusta, afasta o paciente e o deixa preso à dor, quando ele poderia estar no caminho da melhora.
Bloqueio bem indicado não é vício. É medicina com precisão.
E quando feito por quem entende, com o olhar atento de um especialista em coluna, ele pode ser a ponte entre a dor e a recuperação.