Série: Desmentindo mitos sobre dor e cirurgia da coluna Episódio 15 — “Se eu operar, vou ter que colocar parafuso”
18 de fevereiro de 2026 | sem comentário | Categoria(s): Sem categoria
Poucas palavras assustam tanto quanto “parafuso” quando o assunto é coluna.
O paciente nem sempre sabe exatamente o que isso significa, mas imagina perda de movimento, dor permanente, limitação física e até a sensação de ter “uma coluna de metal”.
É nesse momento que surge a frase:
“Se eu operar, vou ter que colocar parafuso.”
Como se fosse uma consequência inevitável.
Como se toda cirurgia de coluna fosse automaticamente uma artrodese.
Esse mito nasceu de uma realidade do passado. Durante muito tempo, a cirurgia de coluna era mais agressiva e frequentemente dependia de estabilizações maiores. Com o avanço da medicina, da tecnologia e das técnicas cirúrgicas, essa lógica mudou.
O que antes era comum, hoje muitas vezes se tornou exceção.
O mito: cirurgia significa parafuso
Esse mito cria uma associação automática:
Cirurgia significa parafuso.
Parafuso significa coluna travada.
Coluna travada significa fim da vida ativa.
Mas a realidade é muito mais complexa — e, na maioria das vezes, muito mais favorável ao paciente.
A verdade: existem diferentes cirurgias para diferentes problemas
A coluna não é uma estrutura única. Ela funciona como um sistema composto por discos, articulações, músculos e ligamentos.
A cirurgia moderna segue um princípio simples: tratar a causa específica do problema com a menor agressão possível.
Em muitos casos, isso significa realizar procedimentos que não envolvem parafusos, como descompressão nervosa, remoção de fragmento discal, liberação de forame ou técnicas minimamente invasivas.
Parafusos entram em cena apenas quando existe uma necessidade real de estabilizar a coluna.
Quando o parafuso faz sentido
Parafusos e sistemas de instrumentação têm um papel importante e bem estabelecido em situações específicas, como instabilidade segmentar comprovada, deformidades estruturais que precisam de correção, fraturas instáveis, revisões cirúrgicas complexas ou alguns casos de espondilolistese com instabilidade.
Nesses cenários, a estabilização não é um excesso de tratamento, mas uma forma de proteger a coluna e evitar piora do quadro.
Ou seja, não se trata de colocar parafuso simplesmente porque houve cirurgia, mas porque existe uma indicação clara para estabilização.
Quando o parafuso não é necessário
Em grande parte das situações que levam pacientes ao consultório por dor irradiada, as cirurgias mais comuns são procedimentos de descompressão.
Hérnias de disco lombares com dor ciática, compressões foraminais localizadas, algumas estenoses iniciais do canal vertebral e vários procedimentos endoscópicos podem ser tratados sem necessidade de instrumentação.
A filosofia atual é preservar o máximo possível da anatomia da coluna, removendo apenas o que causa compressão ou conflito mecânico.
Por que esse mito ainda persiste
Esse medo continua circulando por alguns motivos.
Muitas pessoas ainda carregam histórias antigas, de uma época em que as cirurgias eram maiores e mais invasivas.
Também existem casos complexos, conhecidos por familiares ou amigos, que exigiram instrumentação extensa e acabam sendo tomados como regra.
Além disso, a própria ideia de implantes metálicos costuma gerar receio, mesmo quando eles são necessários e funcionam como parte importante do tratamento.
O que o paciente deve perguntar
Uma boa consulta não termina com medo. Termina com entendimento.
Algumas perguntas ajudam a transformar insegurança em clareza: qual é o objetivo da cirurgia no meu caso — descomprimir ou estabilizar? Existe instabilidade documentada? Se houver parafusos, qual segmento será estabilizado e por qual motivo? Essa estabilização limita atividades da vida diária? Existem alternativas minimamente invasivas? Como será a reabilitação e o retorno às atividades?
A diferença entre medo e confiança costuma estar na qualidade da explicação.
Parafuso não é vilão
É importante deixar claro que parafusos não são algo negativo por si só.
Eles são ferramentas utilizadas para estabilizar a coluna quando necessário.
O problema não é o implante em si, mas sim indicar quando não é preciso ou deixar de indicar quando seria fundamental.
A boa cirurgia é aquela que respeita o diagnóstico e protege o paciente — nem tratando menos do que deveria, nem exagerando no tratamento.
Conclusão
A frase “se eu operar vou ter que colocar parafuso” é um mito que muitas vezes impede decisões corretas.
Hoje, muitos pacientes podem ser tratados com técnicas modernas que não exigem instrumentação.
E quando os parafusos são necessários, eles fazem parte de um planejamento preciso, baseado no diagnóstico e na proteção da coluna.
O objetivo da cirurgia não é travar a coluna, mas devolver qualidade de vida.
Se você recebeu uma indicação cirúrgica e saiu da consulta apenas com medo de “parafusos”, saiba que isso não é inevitável — pode ser apenas falta de esclarecimento.
Procure avaliação especializada para entender qual é a causa do problema, qual é o objetivo do procedimento e se a estabilização realmente é necessária.