Episódio 3 – “Fazer bloqueio na coluna vicia?” Série: Desmentindo mitos sobre dor e cirurgia da coluna

26 de agosto de 2025 | sem comentário | Categoria(s): Sem categoria

Episódio 3 – “Fazer bloqueio na coluna vicia?”

Série: Desmentindo mitos sobre dor e cirurgia da coluna

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Introdução

Talvez você já tenha escutado algo assim:

“Cuidado com esse bloqueio… isso vicia.”

“Se fizer um, vai ter que fazer para o resto da vida.”

“É igual remédio forte, depois o corpo acostuma.”

Essa é uma das ideias mais enraizadas — e mais equivocadas — quando se fala em tratamento para dor na coluna.

Hoje, vamos esclarecer de forma definitiva:

Bloqueio não é vício. É tratamento.

Mas como todo recurso terapêutico, precisa ser bem indicado, bem feito e dentro de um plano claro de reabilitação.

Vamos entender?

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Afinal, o que é um bloqueio na coluna?

O bloqueio é um procedimento médico, guiado por imagem, no qual se injeta uma combinação de anti-inflamatório + anestésico diretamente no local da dor:

  • Faceta articular
  • Forame neural
  • Raiz nervosa
  • Canal vertebral
  • Disco intervertebral (em casos específicos)

É um procedimento ambulatorial, rápido, com anestesia local ou sedação leve.

E o objetivo não é “mascarar a dor”, como dizem por aí.

O objetivo é:

Desinflamar a região

Interromper o ciclo da dor crônica

Permitir que o paciente retome sua reabilitação com menos dor

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Bloqueio é a mesma coisa que infiltração?

Nem sempre.

  • “Infiltração” é um termo mais genérico, usado em ortopedia e reumatologia.
  • “Bloqueio” é um termo técnico, neurocirúrgico ou anestésico, que envolve precisão anatômica guiada por imagem, muitas vezes com uso de contraste.

Ambos utilizam substâncias semelhantes, mas o bloqueio é mais específico e direcionado a estruturas neurológicas.

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Mas então… por que dizem que bloqueio “vicia”?

Vamos desmistificar esse ponto.

O bloqueio não tem nenhuma substância com potencial de dependência.

  • Não contém opioides.
  • Não contém substâncias psicoativas.
  • Não atua em áreas cerebrais ligadas ao vício.

O que acontece é outra coisa:

Quando o paciente sente alívio com o bloqueio — e não sente mais com analgésicos ou fisioterapia — ele passa a desejar aquela sensação de bem-estar com mais frequência.

Isso não é vício fisiológico, mas sim um reflexo do sofrimento prolongado que a dor trouxe.

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A culpa não é do bloqueio — é da dor crônica.

Imagine alguém que convive com dor incapacitante por meses ou anos.

Tenta de tudo: remédios, fisioterapia, exercícios, posturas. Nada resolve.

De repente, após o bloqueio, a dor some por dias ou semanas.

Ele volta a andar, dormir, sorrir, trabalhar.

É natural que essa pessoa deseje repetir o procedimento.

Mas isso não é “vício” — é esperança.

E o papel do médico é orientar com clareza:

O bloqueio é um passo, não o destino final.

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Quantos bloqueios um paciente pode fazer?

Depende do caso, mas existe uma lógica clínica bem definida:

  • Bloqueios devem ser parte de um plano terapêutico
  • São indicados, geralmente, em sequência de 1 a 3 sessões
  • A frequência deve respeitar um intervalo seguro (geralmente 3 a 4 semanas)
  • Se o alívio for temporário, é preciso reavaliar a causa da dor (ex.: hérnia compressiva?)

⚠️ Repetir bloqueios sem critério, mês após mês, sem diagnóstico claro — isso sim pode ser um erro.

Mas isso é falha de conduta médica, não um problema do procedimento em si.

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Existe algum risco em repetir bloqueios?

Sim, como todo procedimento médico, há limites.

  • Corticoides em excesso podem afetar metabolismo, pressão e ossos
  • Repetições mal indicadas podem mascarar diagnósticos mais graves
  • Pode haver rarefação local de tecidos se a aplicação for sempre no mesmo ponto

Mas esses riscos são conhecidos e evitáveis com boa prática médica.

Quando bem indicados, os bloqueios:

✅ Reduzem o uso de opioides e analgésicos fortes

✅ Aceleram a recuperação funcional

✅ Evitam cirurgias desnecessárias em muitos casos

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Quando o bloqueio é a melhor opção?

  • Dor lombar ou cervical por artrose facetária
  • Radiculopatias inflamatórias leves
  • Síndrome miofascial com foco neural
  • Pré-operatório em paciente com dor intensa
  • Teste diagnóstico para dor de origem incerta

Ele também é usado como “teste terapêutico”:

Se a dor melhora com o bloqueio, é um forte indicativo de que aquela região é a verdadeira fonte da dor — e que poderá responder bem a outros tratamentos, ou até à cirurgia, se for o caso.

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E quando o bloqueio falha?

Nem todo bloqueio funciona. E isso também precisa ser dito com clareza.

Motivos para falha incluem:

  • Diagnóstico incorreto (bloquear o lugar errado)
  • Causa mecânica grave (ex.: hérnia de disco extrusa)
  • Fibrose local ou alterações anatômicas complexas
  • Doenças sistêmicas que perpetuam a dor (como fibromialgia)

Por isso, bloqueio não substitui investigação.

Ele é parte do processo. Um aliado, não um atalho.

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Conclusão: bloqueio não vicia — desinforma quem não entende

O maior risco do bloqueio não é fisiológico.

É cultural.

É o mito que assusta, afasta o paciente e o deixa preso à dor — quando ele poderia estar no caminho da melhora.

Bloqueio bem indicado não é vício. É medicina com precisão.

E quando feito por quem entende, com o olhar atento de um especialista em coluna, ele pode ser a ponte entre a dor e a recuperação.


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